Na passada sexta-feira, pela primeira vez em quase dois meses, esqueci-me de dar de mamar à bolachita à hora que tinha previsto. Foram menos de trinta minutos de atraso. Nada de alarmante. Até porque está a aumentar bem de peso e a enfermeira diz que não é preciso marcar hora. Diz que se ela estiver a dormir é deixá-la estar. E ela estava a dormir. Profundamente.
O problema não foi ela ter mamado trinta minutos depois da hora que eu tinha previsto. Não, o problema não foi esse. O problema foi eu ter-me esquecido dela por alguns minutos. É que só tenho pensado nela, nos últimos dois meses. Na alimentação dela, no banho dela, na hidratação da pele dela, no mudar de fraldas dela. No bem-estar dela. Só tenho pensado nela, nos últimos dois meses. Nela e em mais ninguém*. Muito menos em mim. E, na passada sexta-feira, quando levantei os olhos para olhar para o relógio e vi que já tinha passado a hora que tinha previsto para lhe dar de mamar, fiquei toda atrapalhada. Fiquei com aquele aperto. Diz que é no coração. Isso não sei. Mas doeu. Doeu um tico. A última vez que me tinha sentido assim - ou talvez ainda um tico pior - foi poucos dias antes de ela nascer. Caiu-me água a ferver em cima da barriga. Aquela merd* doeu. Mas não foi a dor física que mais me custou. Longe disso. Fiquei em pânico. Fiquei com um medo incontrolável só de pensar que poderia ter afectado a bolachita. Coloquei água fria. Fui comprar o creme adequado para queimaduras. As pessoas habilitadas para tal confirmaram que não tinha afectado em nada a pequenita. Mas eu andei muito preocupada nos dias a seguir. Fiquei em baixo. Bastante. Muito. Só me apetecia chorar. Tentava controlar-me porque me diziam que esse meu mau estar é que, esse sim, poderia afectar a bolachita. Mas aquele sentimento era incontrolável. Na altura, também não foi a queimadura em si que me doeu. Foi o ter deixado que tal acontecesse. Foi sentir que tinha errado. Foi pensar que poderia acontecer o mesmo já tendo a bolachita nos braços. Foi perceber que este pequeno ser que é, neste momento e para sempre, o mais importante da minha vida precisa de toda a minha atenção. Precisa incondicionalmente de mim. Foi sentir que poderia não estar à altura de tamanha responsabilidade.
Na passada sexta-feira, dois meses depois, senti o mesmo. E doeu. Num sítio que não sei bem qual é, mas que dói um tico.
* para ser exacta, também tenho pensado na minha mãe. Desde há oito meses para cá que lhe ligo todos os dias. Era às oito horas da manhã, enquanto esteve no hospital. É às nove da noite, agora que voltou para casa. Todos os dias, religiosamente, não pode falhar.