sexta-feira, 7 de março de 2014

Há com cada mito enraizado na cabecita de certa gente


Na mente da maioria das pessoas, uma mulher magra não pode ter filhos. Fui alvo deste preconceito no mínimo estúpido, apercebendo-me da coisa só depois de engravidar.
Quando uma pessoa minha conhecida disse a outra - que também me conhece de vista e pouco mais - que eu estava grávida, a sujeito largou um a sério, engravidou? Mas ela é tão seca!, cheio de espanto. Julgo que não vale a pena comentar nem acrescentar o que quer que seja. O absurdo da conversa da senhora fala por si.
 
No Centro de Saúde, a enfermeira que segue a bolachita para questões de pesagem e vacinação também ficou admirada da primeira vez que me viu e, cinco meses depois, continua com a mesma admiração.
A primeira vez, foi quando a bolachita só tinha cinco dias. Olhou para mim. Abriu uns olhos do tamanho do mundo e gritou: Mas como é que saiu do corpinho desta miúda uma bebé tão perfeitinha? Agora, sempre que lá vou - no início era uma vez por semana, agora é uma vez por mês, graç'à deuze - não resiste a questionar um suposto amigo imaginário: Mas quem é que diria que esta menina, com este corpo, acaba de ser/foi mãe? Que inveja! Acredito que quando a bolachita já tiver dezoito anos e formos ao Centro de Saúde falar de contraceptivos (antes dos dezoito? nem pensar, ok?) a Sra. enfermeira vai lá andar, atrás de nós, com a mesma pergunta. Ó Sra. enfermeira poupe-me, ok?


 
Outra coisa é a amamentação. Faz espécie a muita gente que uma mulher magra tenha leite para alimentar a sua cria.
Começando de novo pela Sra. Enfermeira. Como já devem ter percebido, a Sra. esquece o que disse nas visitas anteriores (é normal, passa por lá muita gente, pronto). Um dia, ao ver o aumento significativo de peso da bolachita, perguntou, uma vez mais, se só a alimentava com mama. Quando respondi que sim, ficou, outra vez, admiradíssima e lançou Ora viram, tão magrinha e tem leite daquele mesmo bom e rematou Como se costuma dizer, quem vê caras não vê corações. Fiquei de olhos abertíssimos de perplexidade, tal era a minha vontade de lhe explicar que misturar alhos com bugalhos é de pessoa frágil de cabeça. Eu diria antes, quem vê caras não tem de formar uma ideia estupidamente preconcebita sobre o que as pessoas com essas ditas caras têm ou não a capacidade de fazer.
Da última vez que lá fomos, a mesma coisa. Pesou a pequenita, ficou satisfeita com o aumento de peso e questionou: já começou com as papas, certo? Não, respondi. Ah, mas dá suplemento, continuou. Não, repeti. Olhou, com os olhos bem abertos, para a zona do meu peito e exclamou: só a alimenta com mamã?! Espectáculo! E finalizou a conversa, com um piscar de olhos às minhas maminhas, dizendo: Cinco estrelas, hein! É que só visto, mesmo. Para mim, no mínimo surreal...

Na maternidade, pior. A enfermeira olhou para mim e começou: mas onde está a barriguita? Fiz-me de despercebida e respondi: não estou grávida, a bolachita já está cá fora há mais de quatro meses. E ela: Pois, pois, mas mesmo assim.
Pediu-me que subisse para a balança e aí é que foi:
- Sabe, mamã (detesto quando uma fulana qualquer me chama "mamã". Vá chamar "mamã" à mãe dela, porra!), se estiver a amamentar tem de se alimentar bem é que para o crescimento da criança...
- Eu sei muito bem disso. Não se preocupe que para controlar o crescimento da minha filha estou cá eu e a minha médica de família se for preciso. Nem a deixei concluir o seu raciocínio da treta. É que não há paciência para estas coisas. Mesmo. Até porque estava ali para uma consulta minha e não da pequenita.

Ainda sobre a amamentação. No fim-de-semana passado fui, pela primeira vez desde que a bolachita nasceu, à terra dos meus pais. Fomos almoçar com vários familiares. Estava no carro a dar de mamar, antes de entrar no restaurante para depois poder saborear a minha refeição em paz. Chega o meu padrinho, encosta a cara ao vidro e pergunta-me se ela está a dormir. Respondo-lhe que não, que está a mamar. Deviam ter visto a cara dele. Espanto total. E começa a conversa parva de tão surreal:
- Ai tu dás-lhe a mama?
- Sim.
- Só mama?
- Sim.
- E tens corpo para isso?
- Parece-lhe que a miúda está subnutrida?
Olha para as bochechas e as pernocas da pequenita,
Ele não!
- Então parece-me que está respondido...


As pessoas têm de entender que ser magra não significa ser fraca, menos capaz ou incapacitada. Se sou magra? Sou sim, com muito gosto (enfim, não querendo ser picuinhas mas simplemente mais exacta, diria antes que sou elegante. Pormenores...) . Se sou frágil? Não, não o sou. Tenho a força e a capacidade necessárias para criar a minha filha. Não se preocupem.




Agora, uma coisa é certa, nem tudo é negativo, quando se olha a aparências. Também houve pessoas que, antes de engravidar, me disseram que ia ter um parto santo. Diz que pessoas magras com cintura fina e anca larga têm o corpo perfeito para dar à luz com grande facilidade. E não é que confere?


Resumindo. Não tenho por onde me queixar. E essa gente com preconceitos que vá agourar para outra freguesia. Dava um certo jeito aqui à minha (falta de) paciência. Ai dava, dava...



nota: por falar em aparências e ideias feitas, tinha outro episódio engraçado, desta vez com a Sra. Dra. anestesista, para vos contar. Mas fica para outra altura, que este post já vai longo.

13 comentários:

  1. Foto de mãe-leoa, eheheheheh.
    Ai, a mim também me faltava a paciência, acredita! Mas pronto, eu "já tinha corpo" para isso tudo, já ninguém ía estranhar (e quem me dera não o ter....)

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    1. ;D
      Pensamento positivo: com um pouco de esforço, vais deixar de o ter...

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  2. Que monte de ideias sem sentido! As pessoas dizem cada uma! Eu já vi de tudo um pouco, desde uma magra quase no fim do tempo e quase sem barriga até outra que com 1 mês já parecem 3 ou 4... ambas com filhotes lindos e saudáveis :)

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    1. Há pessoas retorcidas, sem dúvida...
      Olha que eu também fiz uma barrigona enorme. Por isso, durante a gravidez, não houve grande gente a chatear-me. Ficavam bastante admirados com o tamanho da minha barriga em relação ao resto do corpo. Mas as caras de espanto até tinham a sua graça. O pior foi desde que a bolachita nasceu...

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  3. assinado por baixo!
    :)
    bjs

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    1. Também sujeita ao preconceito do ser magra, suponho.
      :)
      bjs

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  4. Adoro que as pessoas achem que podem opinar e concluir o que quiserem sobre alguém, só porque esse alguém é magro. Se for um gordo é tudo paninhos quentes, é só forte ou bem constituído, não se pode ser desagradável nem tirar o terceiro prato de feijoada da frente, mas quando é magro toca de tecer comentários e empurrar comida porque temos, de certeza, uma falta de vitaminas ou de outra coisa qualquer...

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    1. É isso mesmo! (essa de não se poder tirar o 3º prato de feijoada da frente foi do melhor que já li ;D)
      Se uma pessoa é magra acham sempre que é por não comer, por estar doente ou ser doente... E eu que como que me farto… Chatice, pá!

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  5. Que belo texto, um dos melhores que já li. Dá a ideia que é sobre o preconceito mas na realidade é: "como-auto-elogiar-e-gabar-me, aiii-como-penso-que-sou-boa".
    "cintura fina e anca larga"...ah-ah-ah, tu? Ah-ah-ah...anca larga? Ah-ah-ah...
    ti-ti-ti-ti-ti-ti-ti-ti <- som do despertador.

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    1. Que belo comentário, um dos melhores que já li. És tão gaja, Verdade? Como é que é possível? Nem consigo acreditar que um homem tenha este tipo de comentário de gaja-triste-e-ressabiada-que-não-tem-mais-o-que-fazer-a-não-ser-tentar-chatear-gente-alheia-com-as-suas-críticas-de-caca.
      Tu é que precisas de acordar para a vida. Mesmo. O quanto antes...

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    2. Desculpa, errei na pontuação. És tão gaja, Verdade! Assim é que é. Que não estou a questionar nada. Não tenho dúvidas. É mesmo uma afirmação.

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  6. Estou no outro extremo. Sempre fui cheiinha e passei pela obesidade aos 18 anos. Perdi até aos 85 e estagnei (sinto-me bem assim, comendo o que quero e fazendo o exercicio que preciso). Comecei o planeamento familiar e ouço muito "ah podia fazer uma dietazinha durante a gravidez q assim a criança levavalhe esses kilos a mais" ou "tem que perder muito peso para nao ter pre eclampsia ou outtas complicacoes", "ja pensou que nao vai aguentar muito tempo com o seu filho no colo" (eu sou babysitter e faço limpezas, aguento os filhos de toda a gente no colo e ainda esfrego casas inteiras tectos e chao incluidos, e claro faço ginasio, portanto expliquem-me lá como é que nao vou levantar pequena criatura) ou a cereja no topo do bolo "ja pensou que ao amamentar vai estar a passarlhe a gordura e o colesterol todo?" (Tenho colesterol do mau baixissimo, do bom excelente, açucares e demais sempre baixos e ate ver o meu unico problema foi a tensao super baixa e as anemias)

    Acho que ha preconceitos para todos os gostos

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    1. Bem, já percebi que seja qual for a nossa fisionomia, temos de arranjar - sabe-se lá onde - uma paciência à prova de burrice alheia. Caso contrário, damos em doidas. Realmente, esse preconceito de que uma pessoa forte tem obrigatoriamente problemas de colesterol e tensão alta, entre outros, não faz sentido algum. Mas se, pelo menos, essas alminhas guardassem as suas ideias parvas para elas, tudo na boa. Agora, opinarem sobre a vida dos outros, darem palpites, é demais.

      Bem-vinda, Ana Lima!

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