quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Hibernação

O verão já se foi.
[A bem da verdade, este ano, quase nem dei por ele.]
Chegou o frio indesejado.
O temporal.
Miss Leslie levou-me parte do telhado.
Não acho normal.
Por razões de coerência, também deixei de achar normal a malta entrar aqui e dar de caras com aquela profusão de cores exóticas.
Urgia que a bota voltasse a bater com a perdigota. A mudança de cabeçalho tornou-se, portanto, inevitável.

E não nos podemos ficar pelo tempo lá fora para justificar tal mudança. Há coisas que têm de ser ditas. E a verdade é que nem só o tempo anda murchito. Este casebre também. Temos de nos render às evidências. Anda com as baterias em baixo. Não tenho tido pachorra para ele. Pronto.

Por isso mesmo,
adormecido,
letárgico,
é assim que vai ficar o Miúda nos próximos tempos.
Daí, também, a mudança de cabeçalho. E se é para hibernar, que seja numa cama confortável. E o certo é que não há nenhuma melhor do que a minha. Deixem-se de procurar.



Falta menos de uma semana para voltar ao continente asiático, em mais uma viagem. Um dia, talvez, passe por cá mostrar umas fotos e deixar a malta com uma inveja danada.

Até lá, façam muitas asneiras.
Daquelas mesmo boas.  
Daquelas que não deixam margem para arrependimentos, 
por mais loucas que sejam.

Darei o meu melhor para fazer o mesmo.



Até já.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Petit plaisir délicat*


Eu, que nunca fui uma apaixonada de loiça por lavar, dou por mim a lavá-la com agrado. 
Enquanto passo a esponja cheia de espuma pelos pratos manchados com vestígios de outros prazeres, espero por aquele momento.
Vou tentando estar alerta. Vou tentado estar atenta à sua chegada. Mas uma distraída inveterada nunca deixa de o ser. Não consigo dar por ele a chegar, esse prazer delicado que me leva a lavar loiça com alguma satisfação.
Quando menos o espero, lá está ele. De repente, sinto um abraço apertado. Sinto-te os braços, à volta da minha cintura. Sinto-te as mãos, cruzadas a aconchegarem-me a ti. Sinto-te os lábios no meu pescoço. A tua respiração lenta na minha pele. A tua respiração transformada em beijo. No melhor beijo que se possa receber.
Fecho os olhos e, por instantes, já não há loiça por lavar. Já não há paredes à nossa volta. Já não há gente. Já não há mundo. Só tu e eu. 
Um contra o outro.
Um com o outro. 
Tu e eu.


[19 de Novembro de 2015]




* singela homenagem a Philippe Delerm. Quem pegou o meu livro emprestado que mo devolva. Merci.