Ontem, à noite, comi lentilhas.
Tenho mantido esta tradição há já algum tempo.
Diz que traz fortuna para o ano que, naquele dia, se inicia.
Eu cá, preferia que me trouxesse paz de espírito.
Será que há algum ingrediente milagroso que se deva comer no primeiro dia de Janeiro para isso? Para se ganhar paz de espírito o resto do ano? Todo?
Isso é que eu queria. Mesmo. Comia o que fosse preciso. A pior comida à face da terra marchava sem sequer reclamar [feito considerável, a parte do não reclamar, devo ressalvar]. Metia-a pela goela abaixo. Todinha. E satisfeita, que é outra.
Porque não há coisa melhor do que a paz de espírito. E a saúde. Mas essa, fiz questão de a pedir nas doze passas que emborquei de uma só vez. Já passava da meia noite. Só saúde. Nada mais. Não pensei em pedir outras coisas boas que por aí há.
Há meia noite ainda estava no carro. Estacionamento que é bom, nem vê-lo. Parar à frente de dois carro. Sair para o frio com o fogo já a estoirar no ar. Maravilhar-me, como sempre. Como se fosse o primeiro fogo de lágrimas que visse na vida. Como se fosse uma criança. Porque sou uma criança. Porque só uma pita com as hormonas aos saltos é que consegue dizer que aquelas rosáceas de fogo no céu não têm valor. Passou à minha beira, nem olhei para ela, mas fiquei com pena da moça. E ainda mais satisfeita comigo mesma, por nunca ter sido uma adolescente birrenta. Talvez o seja agora. Um tico. Birrenta. Mas com manias de adolescente, nunca. Criança. Sempre.

Amor. Nunca penso nisso. Mas teria sido outra das possíveis coisas boas a pedir, com as passas agarradas aos dentes. Nunca penso nisso porque sempre achei dispensável. Nunca precisei, a bem dizer. É que não sou dada a sentimentos, como a malta tão bem sabe. Mas, agora que [supostamente] o tenho, deveria fazer um pedido. Pedir que não me martirize o juízo. Pedir que seja calmo e sereno e forte. E brilhante e mágico e surpreendente, como o é o fogo de lágrimas das passagens de ano.
E louco. Sempre. Louco como eu. Para nunca deixar de me sentir em casa. Para nunca deixar de me sentir bem.
Para me conseguir trazer, naturalmente, aquela paz de espírito que tanto anseio.
nota: como tudo o que escrevo - e o que sou - este texto tem um pouco da minha mãe Zremira. escrever é também agradecer-lhe, todos os dias, as palavras inspiradas (e inspiradoras) que me ensinou.