segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Ainda sobre o dia em que se deu o aniversário do ano


Estou eu a lavar os dentes, são umas nove da manhã. Toca-me o telemóvel, ainda revestido da Hello Kitty mais pindérica de todos os tempos. É o meu pai. Há três anos que não me deseja os parabéns. Aliás, que me lembre, nunca desejou. A não ser naquele ano. Fico curiosa por saber quem é que avisou o homem da boa nova.

Passo a manhã no mesmo sítio de que falei ali.

Há tarde, brinco com a Bolachita. Ficamos à espera que chegue esta delícia. Afinal, não vem. Deve ter ficado presa num trânsito qualquer. Mas parece que, no próximo fim-de-semana, consegue aterrar na cozinha mai'linda do universo que é a minha.

No meio das brincadeiras, liga-me a minha melhor amiga. Ficamos que tempos ao telefone, com a Bolachita impaciente por já não lhe dar a devida atenção. A nossa conversa é interrompida pela campainha. É a teimosia-em-pessoa. Quer ir lanchar fora às dezanove horas. Não lhe dou ouvidos. Volta a atacar para o jantar. Cansada de tentar meter algum juízo na cabeça do rei-da-cisma, lá acabo por concordar. Vamos a uma data de restaurantes. Todos cheios. A Bolachita já sem forças de tanta fraqueza. Lá voltamos nós para casa sem jantar. Aparece um bacalhau à casa. Não como nada daquilo. Canso-me do meu dia de anos, por uns momentos. Foi o tempo de comer o meu pão com tomate. Ainda tive de o partilhar com a Bolachita que, entretanto, já tinha comido spaghetti à la tomate. Mas, pelos vistos, não tinha ficado satisfeita.

A menina-dos-meus-olhos, devidamente revigorada, canta-me os parabéns sem se enganar. Engasga-se um tico quando chega a parte de dizer o nome da menina que leva com uma salva de palmas. Mas lá se lembra a tempo e corre tudo bem.

Divirto-me muito na, já habitual, sessão de fotos. Bebo duas flûtes de champanhe e sinto a cabeça ligeiramente alterada. Converso, no messenger do facebook a partir do meu smartphone (estou a tornar-me numa moça moderna), com um ex-namorado de outra vida. E aproveito o resto da noite no sofá vermelho. Antes de me ir deitar, na madrugada do dia seguinte. 

Notícia 'boa': no sábado, cresci mais um ano




Confirmo. O bolo ainda tinha espaço para pôr mais velas. Não sou assim tããããããããão velha.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Lamechices boas #5




à chaque fois que tu redessines
de tes doigts délicats, 
tous les recoins de mon visage.
Un par un.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

E é isto #22 (especial Ano Novo)

Ontem, à noite, comi lentilhas.
Tenho mantido esta tradição há já algum tempo.
Diz que traz fortuna para o ano que, naquele dia, se inicia.
Eu cá, preferia que me trouxesse paz de espírito.
Será que há algum ingrediente milagroso que se deva comer no primeiro dia de Janeiro para isso? Para se ganhar paz de espírito o resto do ano? Todo?
Isso é que eu queria. Mesmo. Comia o que fosse preciso. A pior comida à face da terra marchava sem sequer reclamar [feito considerável, a parte do não reclamar, devo ressalvar]. Metia-a pela goela abaixo. Todinha. E satisfeita, que é outra.
Porque não há coisa melhor do que a paz de espírito. E a saúde. Mas essa, fiz questão de a pedir nas doze passas que emborquei de uma só vez. Já passava da meia noite. Só saúde. Nada mais. Não pensei em pedir outras coisas boas que por aí há.

Há meia noite ainda estava no carro. Estacionamento que é bom, nem vê-lo. Parar à frente de dois carro. Sair para o frio com o fogo já a estoirar no ar. Maravilhar-me, como sempre. Como se fosse o primeiro fogo de lágrimas que visse na vida. Como se fosse uma criança. Porque sou uma criança. Porque só uma pita com as hormonas aos saltos é que consegue dizer que aquelas rosáceas de fogo no céu não têm valor. Passou à minha beira, nem olhei para ela, mas fiquei com pena da moça. E ainda mais satisfeita comigo mesma, por nunca ter sido uma adolescente birrenta. Talvez o seja agora. Um tico. Birrenta. Mas com manias de adolescente, nunca. Criança. Sempre.



Amor. Nunca penso nisso. Mas teria sido outra das possíveis coisas boas a pedir, com as passas agarradas aos dentes. Nunca penso nisso porque sempre achei dispensável. Nunca precisei, a bem dizer. É que não sou dada a sentimentos, como a malta tão bem sabe. Mas, agora que [supostamente] o tenho, deveria fazer um pedido. Pedir que não me martirize o juízo. Pedir que seja calmo e sereno e forte. E brilhante e mágico e surpreendente, como o é o fogo de lágrimas das passagens de ano.
E louco. Sempre. Louco como eu. Para nunca deixar de me sentir em casa. Para nunca deixar de me sentir bem.
Para me conseguir trazer, naturalmente, aquela paz de espírito que tanto anseio.





nota: como tudo o que escrevo - e o que sou - este texto tem um pouco da minha mãe Zremira. escrever é também agradecer-lhe, todos os dias, as palavras inspiradas (e inspiradoras) que me ensinou.